Seleção feminina do México: a história esquecida que revolucionou o futebol mexicano
A seleção feminina do México desafiou o preconceito e conquistou resultados históricos, apesar da indiferença oficial.
Há mais de 50 anos, um grupo de jovens brasileiras desafiou o preconceito e conquistou resultados históricos no futebol feminino do México. Apesar do sucesso, suas conquistas permanecem oficialmente ignoradas pela Federação Mexicana de Futebol e pela Fifa, mesmo com a proximidade da Copa do Mundo masculina de 2026, que será sediada pelo México, Estados Unidos e Canadá.
Este relato traz à tona a trajetória de uma seleção que, antes da oficialização do futebol feminino pela Fifa, já brilhava em competições internacionais, enfrentando barreiras e lutando por reconhecimento. Acompanhe a seguir os detalhes dessa jornada que marcou uma geração e ainda inspira o futuro do esporte no país.
Os primeiros passos do futebol feminino no México
O futebol feminino mexicano começou a ganhar força em 1969, com a criação da primeira liga nacional, que serviu como base para a formação da seleção que disputou o torneio mundial amador na Itália, em 1970. Naquela época, a modalidade ainda era vista com desconfiança e enfrentava forte resistência social, mas as jogadoras não se intimidaram.
Apesar do torneio de 1970 não ser reconhecido oficialmente pela Fifa — que só organizaria sua primeira Copa do Mundo feminina em 1991, na China — as chamadas “Aztecas” alcançaram um impressionante terceiro lugar. Muitas delas nem tinham completado 15 anos e já mostravam um talento raro, superando adversárias tradicionais do futebol europeu.
No ano seguinte, o México sediou a competição, que contou com seis seleções. O time nacional conquistou o vice-campeonato, enchendo o Estádio Azteca com cerca de 110 mil torcedores, um público recorde para a época. A equipe mostrou que o futebol feminino mexicano tinha potencial para competir em alto nível, apesar da ausência de apoio oficial.
A luta por reconhecimento e a rebelião salarial
Entre as protagonistas dessa história está Alicia “La Pelé” Vargas, goleadora do time e considerada uma das maiores jogadoras da Concacaf no século XX. Aos 72 anos, ela lembra da indiferença da imprensa e das dificuldades enfrentadas para disputar o torneio de 1970, realizado semanas após o tricampeonato mundial do Brasil.
“Saiu na imprensa ‘México parte para a sua aventura’ em letrinhas pequenas, na página de esportes”, recorda Vargas, que também destaca a arbitragem controversa nas semifinais contra a Itália, que impediu a seleção de avançar à final.
Em 1971, a equipe mexicana conseguiu a revanche contra as italianas na semifinal, mas enfrentou um novo desafio antes da decisão contra a Dinamarca. Surgiu um rumor de que as jogadoras exigiam pagamento de salários, o que gerou tensão e atrapalhou os treinamentos. A derrota por 3 a 0 na final foi marcada por erros e desentendimentos dentro de campo.
Sem salários oficiais, as jogadoras recorreram a doações do público para receber algum valor após o torneio. Cada uma levou para casa o equivalente a cerca de 8.800 reais na cotação atual. Porém, essa partida também significou o fim da participação das atletas na seleção, que foram banidas pela federação mexicana.
Preconceito, expulsão e o legado para as gerações atuais
María de Lourdes de la Rosa, ex-lateral-direita da seleção, lembra com tristeza os insultos e o machismo enfrentados, sendo chamadas de “fugitivas do metate”, um termo que remetia ao lugar tradicionalmente destinado às mulheres na sociedade. Ela destaca que o golpe mais duro foi o desprezo da própria Federação Mexicana de Futebol, que negou o reconhecimento oficial à equipe justamente no momento em que disputavam a final do campeonato.
O futebol feminino mexicano ficou estagnado por décadas, enquanto as seleções vizinhas, como a dos Estados Unidos, evoluíram e conquistaram espaço mundial. De la Rosa acredita que as atletas atuais estão apenas começando, sem poder aproveitar a base construída por aquelas pioneiras que lutaram contra o sistema.
Martha Coronado, outra integrante da lendária equipe, vê com otimismo o crescimento do futebol feminino no país. Ela destaca a importância do pioneirismo das “Aztecas” e celebra a recente vitória da seleção mexicana contra o Brasil, em amistoso disputado em 2027, com 25 mil torcedores presentes.
Para Coronado, o México tem potencial para chegar ao topo do futebol feminino mundial, desde que continue investindo e valorizando suas jogadoras, respeitando o legado de quem abriu caminho há mais de meio século.
Essa história esquecida revela não só a paixão e o talento das primeiras atletas mexicanas, mas também a força da luta por reconhecimento em um esporte que, finalmente, começa a receber a atenção que merece.
Perguntas Frequentes
Qual foi o impacto das jogadoras da seleção feminina do México no futebol?
As jogadoras desafiaram preconceitos e conquistaram resultados históricos, inspirando futuras gerações.
Quando começou o futebol feminino no México?
O futebol feminino mexicano ganhou força em 1969, com a criação da primeira liga nacional.
Por que a seleção feminina do México não foi reconhecida pela Fifa?
O torneio de 1970 não era oficialmente reconhecido pela Fifa, que só organizou sua primeira Copa do Mundo feminina em 1991.
Quem foi Alicia 'La Pelé' Vargas?
Alicia Vargas foi uma das principais jogadoras da seleção mexicana, reconhecida como uma das maiores da Concacaf.
Qual foi o legado das 'Aztecas' para o futebol feminino atual?
O legado das 'Aztecas' é a luta por reconhecimento e a inspiração para as jogadoras atuais no futebol feminino.