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Crise financeira no futebol brasileiro: dívidas sobem 16% mesmo com receita recorde em 2025

O endividamento dos clubes de futebol brasileiros ultrapassa R$ 16 bilhões, mesmo com receita histórica de R$ 15 bilhões.

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Crise financeira no futebol brasileiro: dívidas sobem 16% mesmo com receita recorde em 2025

O cenário financeiro dos clubes de futebol brasileiros segue preocupante em 2025. Apesar do faturamento histórico de mais de R$ 15 bilhões, o endividamento dos 20 maiores clubes do país ultrapassa R$ 16 bilhões, um aumento de 16% em relação a 2024. A situação evidencia que o modelo da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), adotado desde 2021, ainda não conseguiu resolver os problemas estruturais que afetam a saúde financeira das equipes.

Para entender melhor esse paradoxo entre receita crescente e dívidas em alta, especialistas e ex-jogadores que hoje atuam como gestores do esporte discutiram o tema em eventos recentes, destacando os desafios culturais e regulatórios que travam a evolução do futebol brasileiro.

SAF: mudança no papel, mas pouco avanço na prática financeira

Quando a SAF foi implementada, a expectativa era que os clubes ganhassem uma gestão mais profissional e atraíssem investidores com capacidade para organizar as finanças de forma sustentável. Porém, o que se vê é um aumento contínuo das dívidas, que já somam mais de R$ 16 bilhões entre os principais clubes.

Ex-jogadores como Elano, atual diretor da base do Santos, e Paulo André, gestor com experiência internacional, apontam que o problema vai além da mudança do modelo jurídico. Segundo eles, falta uma cultura sólida de planejamento a longo prazo no futebol brasileiro, o que acaba comprometendo qualquer avanço financeiro.

“O Brasil não consegue seguir a cultura do planejamento e respeitar o processo”, avalia Elano, ressaltando que a pressa por resultados imediatos prejudica a estabilidade dos clubes.

Paulo André reforça que a legislação da SAF deixou brechas que permitiram o uso inadequado da recuperação judicial, transformando-a em uma espécie de “doping financeiro”. Isso porque clubes com dívidas elevadas recorrem à recuperação para renegociar débitos, mas não enfrentam punições esportivas que desestimulem esse comportamento.

Falta de regras claras e punições enfraquece a gestão financeira

Um dos pontos mais críticos destacados por Paulo André é a ausência de um sistema rigoroso de fair play financeiro no Brasil, com punições que impactem diretamente o desempenho esportivo dos clubes inadimplentes. Essa lacuna cria um ambiente onde o endividamento pode crescer sem consequências reais no campo.

Na comparação com o futebol europeu, o gestor lembra que ligas como a espanhola aplicam regras que limitam o uso das receitas, principalmente dos direitos de transmissão, para garantir a sustentabilidade. No Brasil, esses recursos são frequentemente usados para elevar os gastos com contratações, sem controle adequado.

Paulo André cita como exemplo positivo o trabalho realizado no Cruzeiro, onde houve uma reestruturação orçamentária rigorosa durante a Série B. O clube precisou operar com um orçamento muito abaixo da receita para evitar a falência, mostrando que é possível manter as contas equilibradas mesmo em momentos difíceis.

Cultura de curto prazo domina decisões e compromete o futuro

Além das questões legais, o futebol brasileiro sofre com uma mentalidade que privilegia resultados imediatos em detrimento do planejamento sustentável. Elano destaca que essa pressão constante de dirigentes, torcedores e investidores faz com que decisões sejam tomadas no desespero, sem respeitar etapas fundamentais para o crescimento a médio e longo prazo.

Ele aponta o Palmeiras como exemplo de clube que, mesmo fora do modelo SAF, mantém organização financeira e esportiva por seguir um processo estruturado e disciplinado. Para Elano, a falta de respeito ao processo é um dos maiores entraves do futebol nacional.

“Virou normal no Brasil os clubes deverem, mas isso precisa mudar para que o futebol cresça de verdade”, conclui o ex-jogador.

Os dados da Sports Value confirmam essa realidade complexa: enquanto as receitas do futebol brasileiro avançaram 36% em 2025, as despesas cresceram em igual ritmo, principalmente com salários, que passaram de R$ 5 bilhões para R$ 6,3 bilhões. Esse desequilíbrio entre ganhos e gastos pressiona a sustentabilidade dos clubes e mantém o endividamento em alta.

O futebol brasileiro ainda enfrenta um longo caminho para equilibrar paixão e gestão financeira, e as discussões sobre SAF, regras mais rígidas e mudança cultural serão fundamentais para que o esporte volte a crescer de forma saudável.

Perguntas Frequentes

Por que as dívidas dos clubes de futebol brasileiro aumentaram?

As dívidas aumentaram devido à falta de planejamento financeiro e à pressão por resultados imediatos.

Qual é o impacto da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) na gestão financeira?

A SAF não conseguiu resolver os problemas financeiros, resultando em aumento das dívidas, que já superam R$ 16 bilhões.

Como a recuperação judicial afeta os clubes?

Clubes usam a recuperação judicial para renegociar dívidas sem enfrentar punições esportivas, o que agrava o endividamento.

Quais são as consequências da falta de regras claras no futebol brasileiro?

A ausência de um sistema rigoroso de fair play financeiro permite que as dívidas cresçam sem consequências no desempenho esportivo.

Que exemplo positivo pode ser observado na gestão financeira de clubes?

O Cruzeiro reestruturou seu orçamento durante a Série B, equilibrando contas mesmo em momentos difíceis, mostrando que é possível fazer uma gestão responsável.

Lucas Tavares

Lucas Tavares

Lucas Tavares é colunista do Futebol na Web e escreve com a emoção de quem cresceu entre arquibancadas e transmissões no rádio. Especialista em comentar o que acontece dentro e fora das quatro linhas, ele une paixão, informação e um toque de humor em cada texto.