Racismo no comando: por que técnicos negros são minoria na elite do futebol brasileiro?
Apenas 11% dos técnicos da Série A são negros, refletindo uma desigualdade racial alarmante no futebol brasileiro.
No futebol brasileiro, onde a população preta e parda representa a maioria, a presença de técnicos negros na Série A segue tímida e desigual. Em 2026, Jair Ventura é o único treinador negro entre os 20 clubes da principal divisão, comandando o Vitória, que ocupa a 13ª colocação no Campeonato Brasileiro. Até maio deste ano, ainda havia Roger Machado à frente do São Paulo, mas sua saída após a eliminação na Copa do Brasil deixou o cenário ainda mais desolador para a representatividade racial no comando técnico.
Este retrato revela uma realidade que vai além das quatro linhas, refletindo uma estrutura histórica e social que mantém as portas fechadas para profissionais negros em posições de liderança no futebol nacional. Vamos entender melhor os números, relatos e os desafios que envolvem essa questão.
A dura realidade da sub-representação dos técnicos negros na Série A
Uma análise detalhada dos 159 treinadores que passaram pelos 20 clubes da Série A desde 2016 mostra um dado alarmante: apenas 11% deles são pretos ou pardos, enquanto a população brasileira negra soma mais da metade do total. A identificação foi feita por meio de um processo rigoroso de heteroidentificação racial, o mesmo usado para garantir a autenticidade das cotas raciais.
- Brancos: 89,3% (142 treinadores)
- Pardos: 8,2% (13 treinadores)
- Pretos: 2,5% (4 treinadores)
Santa de Souza, responsável pela banca de identificação, destaca que “os técnicos pretos estão sub-representados quatro vezes menos; os pardos, quase seis vezes menos, enquanto os brancos aparecem quase 100% a mais que o percentual deles na sociedade”. Isso expõe uma desigualdade estrutural no futebol, que não se justifica apenas pelo mérito esportivo.
Vozes que denunciam: o racismo estrutural no futebol brasileiro
Orlando Ribeiro, técnico que passou pelo Santos em 2022, é um dos poucos que aceitou falar sobre o tema. Ele revela que a paciência com profissionais negros no comando é muito menor. “Todo trabalho tem um momento de oscilar. A gente deveria ter mais condições para o treinador negro”, afirma, refletindo sobre o tratamento desigual que recebe dentro das equipes e da torcida.
Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, reforça essa percepção: “O futebol não aceitou negros e negras, ele tolera. A paciência é quase nula e não há entendimento sobre a capacidade intelectual desses profissionais”. Para ele, a persistência do racismo estrutural impede que treinadores negros conquistem mais espaço e reconhecimento.
O caso de Roger Machado exemplifica esse cenário. Apesar de um início promissor no São Paulo, com 57% de aproveitamento nos primeiros jogos, ele sofreu com a pressão da torcida e da diretoria, especialmente após a saída de Hernán Crespo. Sua demissão, apenas dois meses depois, expõe a menor tolerância e o preconceito velado que ainda permeiam o futebol brasileiro.
Jogadores negros x técnicos negros: o contraste que revela o racismo
Enquanto cerca de 58% dos jogadores nas Séries A e B são negros, segundo estudo da USP publicado em 2024, a presença desses profissionais na função de treinador é muito inferior. Essa discrepância aponta para a desvalorização dos negros em cargos de liderança dentro do esporte, um reflexo direto do racismo estruturado na sociedade brasileira.
Donald Veronico, pesquisador responsável pelo levantamento da USP, explica que a diferença entre a representatividade dos jogadores e dos técnicos está ligada ao preconceito persistente. “O racismo é a principal barreira para que mais negros assumam posições de comando”, afirma.
Além disso, o receio de se manifestar publicamente sobre o tema é grande entre os técnicos negros. Marcelo Oliveira, do Observatório, comenta que a repercussão negativa em torno de Roger Machado serve como alerta para que outros profissionais evitem falar abertamente sobre racismo, com medo de sofrer retaliações ou perder seus cargos.
O futebol como reflexo da desigualdade social brasileira
O futebol é, em muitos aspectos, um espelho da sociedade. Roger Machado já dizia que o esporte amplifica e cristaliza as injustiças sociais do país. A baixa presença de negros em cargos de liderança no futebol acompanha dados nacionais que mostram disparidades salariais e de oportunidades em diversas áreas.
Segundo pesquisas do IBGE, gerentes e diretores negros recebem em média 34% menos que seus equivalentes brancos. Esses números se repetem em diferentes setores, incluindo a ciência, agropecuária e forças de segurança. A consultoria Indique Uma Preta revela que apenas 8% das pessoas negras ocupam cargos gerenciais no Brasil, um reflexo direto das barreiras históricas que ainda persistem.
Roger Machado sintetiza essa realidade ao afirmar que “um país criado sobre 400 anos de escravidão não pode escapar dos vestígios desse passado”. No futebol, esses vestígios se traduzem em oportunidades negadas e preconceitos invisíveis, que precisam ser enfrentados para que o esporte realmente represente a diversidade do Brasil.
O desafio é grande, mas a discussão sobre a presença e valorização dos técnicos negros no futebol brasileiro é urgente. Só assim será possível construir um ambiente mais justo, onde talento e competência sejam os únicos critérios para liderar dentro de campo.
Perguntas Frequentes
Qual é a porcentagem de técnicos negros na Série A do futebol brasileiro?
Apenas 11% dos técnicos na Série A são negros, enquanto a população negra representa mais da metade do total no Brasil.
Por que a presença de técnicos negros é tão baixa no futebol brasileiro?
A baixa presença é resultado de racismo estrutural e preconceito, que limitam as oportunidades para profissionais negros.
Quais desafios os técnicos negros enfrentam no futebol?
Eles enfrentam menor tolerância, pressão da torcida e diretores, além de preconceitos que dificultam seu reconhecimento e permanência.
Como a demissão de Roger Machado exemplifica a situação?
Roger Machado foi demitido após um bom início, o que ilustra a menor paciência e o preconceito enfrentados por técnicos negros.
O que diz a pesquisa da USP sobre jogadores e técnicos negros?
Cerca de 58% dos jogadores são negros, enquanto a presença de técnicos negros é muito inferior, refletindo desvalorização em cargos de liderança.