Panorama Internacional Coisa de Cinema destaca força das mulheres no audiovisual brasileiro
O XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema começou com um dado que chama a atenção: metade dos filmes exibidos nesta edição são dirigidos por mulheres. O festival, que acontece até 1º de abril em Salvador e até 29 no Recôncavo Baiano, reúne mais de 130 produções entre curtas e longas-metragens, além de debates e atividades formativas. Essa programação reforça o protagonismo feminino no audiovisual, mostrando um cenário em transformação, mas ainda cheio de desafios.
Com o crescimento do audiovisual no Brasil, o Panorama se firmou como um espaço essencial para a exibição de obras que fogem do circuito comercial, dando voz a histórias e narrativas diversas. Quer saber mais sobre o que está movimentando o cinema feito por mulheres? Continue a leitura.
Mulheres na direção: avanços e desafios no cinema brasileiro
A presença feminina na direção de filmes tem crescido, mas isso não significa que as condições de trabalho estejam equilibradas. Para a curadora do festival, Marília Hughes, o aumento da participação das mulheres está ligado tanto a políticas públicas quanto à atuação delas dentro do setor audiovisual. “O cuidado para incluir temas femininos e uma curadoria formada por mulheres ajuda a trazer essa diversidade”, comenta.
Por outro lado, profissionais como a diretora Milena Anjos ressaltam que ainda há um longo caminho para a igualdade. “O audiovisual é um ambiente predominantemente masculino. Apesar dos avanços dos últimos dez anos, as mulheres ainda enfrentam desigualdades na remuneração e nas oportunidades”, explica. Ela destaca que muitas vezes as cineastas precisam investir recursos próprios para tirar seus projetos do papel, o que revela um cenário ainda desigual.
Erika Fromm, que iniciou sua carreira nos anos 1990, lembra que naquela época poucas mulheres dirigiam filmes e que a direção era vista como território masculino. “Hoje, já conquistamos muito, mas os editais ainda são poucos e não atendem à quantidade de mulheres produzindo”, afirma. Esse contraste entre avanços e obstáculos marca o cotidiano de quem faz cinema no Brasil.
Histórias que transformam: o olhar feminino nas telas
Além do aumento da presença feminina na direção, as narrativas apresentadas ganham profundidade ao trazer experiências pessoais e políticas, muitas vezes invisibilizadas. Larissa Lacerda, diretora do filme O Que Você É Sai Por Todos Os Lados, destaca que sua existência como mulher e lésbica orienta sua criação artística. “Minhas histórias nascem da escuta do que foi silenciado, do que ficou nas bordas”, conta.
Para Larissa, o ato de narrar é um gesto político e afetivo que rompe silêncios e cria identificação com o público. Já no curta Rambutan, de Erika Fromm, o enfoque é o cotidiano e as relações de cuidado, com uma perspectiva feminina que valoriza temas como maternidade e transformação corporal.
Milena Anjos reforça que a vivência de ser mulher, especialmente mulher preta, atravessa todo o processo criativo. “Não tem como separar a criação das nossas dores e delícias enquanto mulheres”, diz. Essas histórias ampliam o repertório cultural e desafiam os padrões tradicionais do cinema brasileiro.
Festivais como espaços de reconhecimento e resistência
Em um mercado com poucas janelas de exibição, festivais como o Panorama são fundamentais para a circulação e reconhecimento de filmes dirigidos por mulheres. Marília Hughes destaca que ser selecionada para um evento desse porte já é uma grande vitória. “Recebemos cerca de dois mil filmes e exibimos pouco mais de 130. Isso mostra como o espaço é disputado”, explica.
Para as diretoras, participar do festival representa visibilidade e valorização. Milena Anjos, que estreia seu primeiro longa como diretora no evento, celebra a oportunidade. “O Panorama é o principal evento regional do audiovisual na Bahia e um dos mais importantes do país. É um espaço que inspira e fortalece”, afirma.
Erika Fromm destaca a conexão afetiva com o local onde seu filme foi rodado, ressaltando a importância de estrear no território que inspirou a obra. Larissa Lacerda também valoriza o impacto do festival para ampliar as possibilidades de alcance e fortalecer o vínculo com o público local.
Além disso, redes de apoio entre mulheres cineastas crescem, mas ainda enfrentam limitações. Milena Anjos observa que coletivos ajudam, mas não resolvem sozinhos os desafios estruturais. Ela defende que a transformação do setor depende de um compromisso coletivo, envolvendo também os homens que ocupam a maioria dos espaços.
Erika Fromm e Larissa Lacerda reforçam a importância desses encontros para fortalecer conexões e legitimar narrativas que, muitas vezes, são vistas como marginais. O movimento feminino no audiovisual brasileiro segue ganhando força, com a certeza de que ainda há muito a conquistar.
O XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema não apenas exibe filmes, mas também abre espaço para debates e reflexões sobre o papel das mulheres no cinema. O evento é um convite para celebrar conquistas e reconhecer os desafios que ainda precisam ser superados para que o audiovisual brasileiro seja realmente plural e inclusivo.
Perguntas Frequentes
Qual a importância do Panorama Coisa de Cinema?
O festival é essencial para a exibição de obras que fogem do circuito comercial e dá voz a narrativas diversas.
Quantos filmes são exibidos no festival?
Mais de 130 produções entre curtas e longas-metragens são exibidas no evento.
Como as mulheres estão se destacando na direção de filmes?
O número de mulheres dirigindo filmes tem crescido, embora ainda haja desigualdades em remuneração e oportunidades.
Qual o impacto dos festivais para as cineastas?
Festivais como o Panorama oferecem visibilidade e valorização para filmes dirigidos por mulheres.
Quais são os desafios enfrentados por mulheres no audiovisual?
Elas ainda enfrentam desigualdades na remuneração e precisam muitas vezes investir recursos próprios em seus projetos.