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Torcidas organizadas e crime: o novo capítulo da violência no futebol brasileiro

21. fevereiro. 2026
5. Min. de leitura
Torcidas organizadas e crime: o novo capítulo da violência no futebol brasileiro

O futebol brasileiro voltou a ser palco de uma triste realidade que ultrapassa as quatro linhas do campo. Recentemente, episódios de violência envolvendo torcidas organizadas no Ceará chamaram atenção para a crescente influência de organizações criminosas no controle desses grupos. A situação expõe um problema complexo, que mistura paixão pelo esporte, poder paralelo e desafios para a segurança pública.

Se você quer entender o que está acontecendo por trás das torcidas organizadas, os impactos dessa relação com o crime e o cenário que se desenha para o futebol nacional, continue a leitura. A seguir, vamos destrinchar essa questão grave e atual.

O caso Ceará: violência antes do clássico e o controle das facções

No dia 8 de fevereiro de 2026, Fortaleza e Ceará protagonizaram o primeiro Clássico-Rei do ano em pleno estádio Arena Castelão. Mas o que deveria ser apenas um espetáculo esportivo acabou marcado por uma onda de violência nas ruas da capital cearense. Antes da bola rolar, confrontos generalizados entre torcedores geraram a prisão de 350 pessoas pela Polícia Militar.

Apesar da gravidade dos episódios, não houve registro de mortes ou feridos graves. O que chamou atenção foi a reação dos presidentes das principais torcidas organizadas do estado, que anunciaram renúncia dos cargos após o ocorrido. Weslley Paulo, conhecido como Dudu, deixou a liderança da Cearamor, enquanto Anderson Xiboi também se afastou da Torcida Uniformizada do Fortaleza.

Vídeos e mensagens divulgados em grupos de aplicativos revelaram que as ordens para cessar as brigas teriam partido do Comando Vermelho (CV), que atua no Ceará. Essas “proibições” também incluíram o fechamento das lojas das torcidas, numa tentativa clara de controle do território e das atividades econômicas ligadas aos grupos.

Torcidas organizadas e crime organizado: uma relação complexa e cheia de nuances

Para entender essa conexão, o sociólogo argentino Nico Cabrera, especialista em torcidas e barras bravas, destaca que torcidas organizadas e o crime organizado são mundos distintos, ainda que por vezes se cruzem. Ele alerta que equiparar ambos é um erro, mas reconhece que a expansão territorial das facções traz esses universos para mais perto.

“Quando uma torcida quer realizar ações em uma comunidade, precisa dialogar com todos os atores locais, inclusive com a facção que domina a área”, explica Cabrera, apontando para a inevitável interação.

Essa convivência, no entanto, pode ser marcada pela violência e pela imposição de regras impostas pelas facções, como os chamados “salves” – ordens para evitar confrontos entre torcidas que possam atrair atenção policial. O caso do Ceará ilustra essa dinâmica, com exigências que vão além, incluindo a troca de lideranças e restrições econômicas.

O sociólogo ressalta que, paradoxalmente, essas facções acabam assumindo uma espécie de papel regulador da violência nos territórios que controlam, numa ação que em alguns momentos parece mais eficiente que a própria atuação do Estado em garantir segurança.

Histórico recente: a morte de líder da Mancha Verde e ligações com o PCC

Essa não é a primeira vez que a relação entre torcidas organizadas e crime organizado ganha destaque. Em 2017, o assassinato de Moacir Bianchi, fundador da Mancha Verde do Palmeiras, chocou o país. Ele foi morto com 14 tiros numa emboscada em São Paulo.

As investigações apontaram que a morte teve ligação com disputas internas na torcida, envolvendo a entrada de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) na estrutura do grupo. Um dos condenados pelo crime, com longa ficha criminal, estava diretamente associado à facção criminosa.

Torcidas organizadas no Brasil: da festa à violência

As torcidas organizadas surgiram no Brasil entre as décadas de 1940 e 1950 como grupos festivos e espontâneos, que buscavam apoiar seus clubes com música, bandeiras e animação nas arquibancadas. Com o passar do tempo, ganharam estrutura, hierarquias e se tornaram parte essencial da cultura do futebol.

Porém, a partir dos anos 1980, episódios de violência começaram a ganhar destaque, com confrontos entre torcedores rivais e mortes que marcaram a história do futebol nacional. A maioria dos envolvidos são jovens, em sua maioria homens entre 18 e 30 anos, muitos vindos de contextos sociais vulneráveis, que encontram nas torcidas um senso de identidade e pertencimento.

Levantamentos indicam que, entre 1988 e 2023, pelo menos 384 pessoas perderam a vida em episódios ligados à violência no futebol brasileiro. Esses números evidenciam a gravidade do problema e a necessidade urgente de políticas que enfrentem a questão com seriedade.

O cenário atual, com as facções criminosas assumindo influência direta sobre as torcidas organizadas, aponta para um desafio ainda maior para as autoridades, clubes e torcedores. Entender essa relação é fundamental para buscar soluções que devolvam ao futebol sua essência de paixão e diversão, longe da sombra da violência e do crime.

Perguntas Frequentes

Qual é a relação entre torcidas organizadas e crime no Brasil?

As torcidas organizadas têm se tornado influenciadas por facções criminosas, levando a um aumento da violência.

O que aconteceu durante o Clássico-Rei no Ceará?

Antes do jogo entre Fortaleza e Ceará, houve confrontos entre torcedores, resultando na prisão de 350 pessoas.

Quais foram as consequências para os líderes das torcidas após a violência?

Os presidentes das principais torcidas do Ceará renunciaram aos seus cargos após os episódios de violência.

Como as facções criminosas influenciam as torcidas organizadas?

Facções impõem regras e controle, como proibições de confrontos, e até influenciam mudanças de liderança nas torcidas.

Qual o histórico de violência nas torcidas organizadas no Brasil?

Desde os anos 1980, a violência entre torcedores cresceu, resultando em centenas de mortes relacionadas ao futebol.

Rafael Dias

Rafael Dias

Rafael Dias é jornalista esportivo e apaixonado por futebol desde criança. Escreve no blog Futebol na Web, onde comenta jogos, analisa táticas e compartilha curiosidades do mundo da bola com linguagem leve e acessível. Com olhar crítico e bom humor, atrai leitores que buscam informação com personalidade.

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